Tese de doutorado da EESC analisa valorização do trabalho humano diante da transição da Indústria 4.0 para 5.0

Em tempos em que o acelerado avanço tecnológico e a robotização moldam cada vez mais a nova indústria, como assegurar a percepção de valor e permanência de alta empregabilidade em contextos próximos à realidade 4.0 e 5.0, sem deixar de valorizar as pessoas que criam ou atuam atrás dessas modernas máquinas? A pergunta, provocativa, virou tema de destacada tese de doutorado defendida pela aluna Nubia Gabriela Pereira Carvalho no departamento de Engenharia de Produção da Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo (EESC/USP).

A tese, intitulada Trabalho humano na transição da Indústria 4.0 para 5.0: Aplicabilidade do design principle de Descentralização a níveis hierárquicos, sob orientação do professor Mateus Cecílio Gerolamo (ESALQ-USP), teve como objetivo propor um roadmap organizacional, um instrumento que pode ser utilizado com aplicação gerida, acompanhada e monitorada sistematicamente, tanto em indústrias como em empresas cujo contexto apresente alguma paridade com as perspectivas industriais tratadas na pesquisa, e que considere o trabalho humano no campo das indústrias 4.0 e 5.0 quanto à aplicabilidade do design principle de descentralização.

Contexto geral

Nubia Gabriela Pereira Carvalho. Foto: arquivo pessoal.
 
“A Indústria 4.0 é um modelo industrial que apresentou, em termos de produção, o caráter mais disruptivo em relação às três revoluções industriais ocorridas anteriormente a ela, sendo comumente conhecida por “Quarta Revolução Industrial”. No entanto, um novo modelo, de caráter evolutivo, mais refinado, tem sido estudado e ponderado por diversos especialistas ao redor do mundo, chamado de ‘Indústria 5.0’, que se dá pela identificação de inúmeros aspectos e artefatos que receberam uma consideração equivocada no modelo anterior. Um desses aspectos pode ser traduzido no cuidado e na valorização do trabalho desempenhado por pessoas nas indústrias”, explica Nubia.

O modelo 4.0 preconiza alta inserção de máquinas e tecnologias que podem atuar como substituintes da força humana de trabalho em diversas áreas de empregabilidade e em escalas distintas. Já o modelo 5.0 traz o ser humano para uma esfera de valor de centralidade (parte do tripé de sustentáculo da indústria 5.0: Centralidade no ser humano; Sustentabilidade; e Resiliência).

“Um dos fatores em que se espera ser mantida a mesma estrutura, até então, é a presença dos chamados design principles, que são princípios norteadores e interdependentes que contribuem para o desempenho de alto padrão das indústrias 4.0 e 5.0. O design principle escolhido para estudo e aplicação na pesquisa foi o de Descentralização em níveis hierárquicos organizacionais. Uma indústria 4.0 que está em transição para o modelo 5.0, inclui em si, quase a mesma base de funcionalidade em termos de infraestrutura. O que as difere, de fato, é a presença de novos valores determinantes da atenção, ações, e tomada de decisões institucionais, principalmente quanto ao tripé de sustentáculo mencionado”, detalha Nubia.

O professor Gerolamo entende que nossa geração tem a oportunidade de experimentar a “quarta revolução industrial”. Para ele, a inclusão de aspectos como sustentabilidade, resiliência e centralidade no ser humano é uma necessidade natural para ressignificar o desenvolvimento tecnológico exponencial, ou seja, orientar o uso da tecnologia para considerar os impactos ambientais e sociais e ampliar a capacidade adaptativa da sociedade frente a tantas mudanças – colocando a tecnologia a serviço da sociedade e do meio ambiente, e não o contrário. “As organizações precisam se livrar dos modelos tradicionais de gestão, ainda pautados no comando e controle, para que possamos usufruir plenamente das vantagens das tecnologias da Indústria 4.0 / 5.0. A descentralização, nesse sentido, é um princípio mandatório. A pesquisa de doutorado da Núbia é uma contribuição direta nesse percurso”, completou o orientador.

Principais achados:

O trabalho final resultante na tese de doutorado conta com revisões bibliográficas realizadas considerando métodos e técnicas que puderam fazer com que todo o cenário que envolve as indústrias 4.0 e 5.0 pudesse ser compreendido quanto a fatores ligados às nacionalidades das principais iniciativas educacionais e empresariais, bem como as indicações e descrições do que cada uma das indústrias abarca em si, e o que se pode esperar de novidades quanto ao modelo da indústria 5.0. 

Além das revisões, o trabalho conta com a proposição de uma estrutura indicativa a respeito das principais contribuições esperadas quanto a cada nível hierárquico de uma organização no processo de transformação de uma indústria 4.0 para 5.0.

“Vale destacar ainda a proposição do Roadmap Organizacional, que inclui 33 diretrizes e 95 metas. Nessa etapa específica do desenvolvimento do trabalho, foram convidados e se tornaram participantes ativos profissionais especialistas brasileiros e alemães ligados às áreas acadêmicas e empresarial atuantes no contexto das duas indústrias”, conta Nubia.

A distribuição do roadmap consiste no estabelecimento de diretrizes e metas estratégicas, gerenciais, operacionais e de sociedade 5.0 voltadas à aplicabilidade do design principle de descentralização quanto ao trabalho humano.

“O instrumento foi desenvolvido pensando não apenas em um segmento industrial, o que permite que ele tenha uma característica limitada de generalização. Assim, pode ser aplicado em vários contextos e segmentos ligados à atividade industrial, em organizações que querem preservar este olhar de valorização ao trabalho desempenhado por pessoas, servindo também como um instrumento de atenção às esferas públicas, de modo que sejam conhecidas as necessidades de aportes não somente financeiros, bem como estruturais, de modo a viabilizar a implementação de cada uma das diretrizes e metas listadas”, afirma a estudante da EESC.

Para Nubia, entender as bases que fundamentam essa transformação na indústria, de modo que essa mudança seja revertida em bons frutos e não em resultados danosos aos humanos, é fundamental. “Espero que o trabalho promova uma reflexão acerca da importância do ser humano. Penso que as tecnologias devem ser voltadas ao serviço das pessoas, não apenas bruscas substituintes do trabalho destas. A evolução não pode e não deve se traduzir em um problema social incontrolável, mas em um crescimento organizado e beneficamente progressivo para todos”, conclui.