
O uso da impressão 3D já é uma realidade em diversos setores da indústria, na saúde e até mesmo para fins domésticos. Sua versatilidade propicia inúmeras funcionalidades, podendo ser usada, inclusive na adaptação dentro do universo da educação. É com esse objetivo que a Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo (EESC- USP) realiza o Curso de Capacitação em Impressão 3D de material didático para estudantes com deficiência.
O projeto de extensão, com duração de 60 horas, visa capacitar profissionais da educação no desenvolvimento desse tipo de material. A primeira turma, composta por 15 participantes, começou o curso em março e deve terminar no início de julho, com a concepção, desenho, impressão 3D e aplicação do material didático nas escolas.
O perfil dessa turma inaugural do curso foi formado em sua totalidade por profissionais ligados à área da educação, em especial os envolvidos com a educação especial para pessoas com deficiência (com foco na deficiência visual). Alguns foram indicados pela Secretaria Municipal de Educação, outros pela Diretoria Regional de Ensino de São Carlos, além de duas professoras de universidades (UFMG e UFG).

“O curso foi pensado para proporcionar um primeiro contato com a impressão 3D por meio da extrusão de filamento. Nossa proposta foi que os participantes pudessem ganhar confiança para começar a utilizar a técnica. Muitas escolas já têm impressoras, porém os professores têm receio de usá-las por desconhecerem como funcionam e por imaginarem que são muito complexas. A ideia é que eles passem a utilizar o conhecimento no seu contexto de trabalho para a produção de materiais adaptados”, destaca o professor Mateus Mota Morais, da EESC, coordenador dessa atividade de extensão.
Integração entre docentes e alunos
A integração entre docentes e alunos da EESC tem sido uma das marcas desse curso, que contou com uma primeira parte de aulas online, na qual foram apresentados como baixar modelos prontos da internet, como criar modelos personalizados usando ferramentas gratuitas online e como preparar o modelo para a impressão 3D (fatiamento).
“Essa parte foi desenvolvida na forma de tutoriais que os participantes deveriam realizar em casa e entregar online. Alunos da EESC atuaram como monitores do curso, tirando dúvidas e auxiliando os participantes, promovendo uma grande integração. Esses alunos ajudaram na produção de tutoriais e vídeos explicativos, em monitorias online para a resolução de dúvidas do projeto, assim como na correção e avaliação das atividades e entregas parciais do projeto realizadas pelos profissionais. Juntos, eles acompanham as visitas às escolas públicas para conhecer a realidade dos profissionais da educação e o contexto de aplicação dos materiais didáticos, e tudo isso enriquece ainda mais essa conexão promovida pelo curso”, ressalta Morais.
Na segunda parte do curso, cada participante foi encorajado a propor um material didático aplicável ao seu contexto de trabalho. Os participantes vieram à EESC para imprimir os modelos desenvolvidos. Na última etapa, em andamento, os participantes devem utilizar os materiais impressos nas escolas ou em seus locais de trabalho.


Há várias instituições envolvidas, já que os professores participantes atuam em diferentes locais. Ao final do curso, haverá um último encontro em que os participantes apresentarão os materiais desenvolvidos e como foram utilizados nas escolas, além de fazer uma reflexão sobre os aprendizados e sobre o que poderia ser feito de forma diferente.
“O envolvimento dos participantes tem sido grande, com uma rica troca com os professores e monitores do curso, todos empenhados em dar forma às ideias nascidas ao longo do curso e que serão usadas na prática, em sala de aula, para testar a aplicabilidade e ouvir da parte mais interessada, a escola, o feedback sobre cada uma dessas iniciativas”, celebra Morais.
Para Vinícius Pereira, bibliotecário da Biblioteca Sônia Bracher e um dos participantes do curso, a atividade proporciona uma conexão valiosa entre o mundo acadêmico e o mundo fora da universidade. “Estou achando muito interessante, conhecendo novas ferramentas e como elas funcionam. Esse é um curso que nos dá a oportunidade de pensar para fora dos muros da universidade, chegando à sociedade”.
A sinergia também é destacada por Ana Paula da Cruz Squassoni, PEC de Educação Especial na Unidade Regional de Ensino de São Carlos. “Acho fundamental essa parceria entre a rede pública de ensino e as universidades. Vocês têm a fundamentação teórica e quando ela se junta à necessidade e à prática, todos nós saímos fortalecidos”.
Quem mais sente essa sinergia é justamente o professor que atua diretamente com esses estudantes com deficiência. “Existe uma carência de material para ofertar conhecimento para essas crianças. O uso da impressora 3D supre muito essa carência e ter profissionais capacitados para a produção desse material adaptado faz toda a diferença. E vale ressaltar: esse tipo de material causa impactos em toda a sala. Os alunos ficam eufóricos, mais interessados em aprender, e isso não só aos alunos com deficiência, mas aos alunos em geral”, afirma Patrícia da Silva, professora do atendimento educacional especializado e ensino colaborativo da Escola Luiz Viviane Filho, de São Carlos.
Antes mesmo de concluir a primeira turma, já existe a ideia de criar novas edições. “Queremos concluir essa turma inicial, aplicar suas criações em sala de aula e receber retornos que nos ajudem a aprimorar as próximas edições, unindo conhecimento acadêmico com colaboração ativa junto à sociedade”, diz Morais.



Para o docente da EESC, essa iniciativa é fruto de um trabalho coletivo, trabalho coletivo, que uniu diversos servidores da Biblioteca, do Centro de Tecnologia Educacional para Engenharia (Cetepe) e do Escritório de Apoio Pedagógico (EAP). Projetos como esse possuem grande potencial para serem ampliados, de modo a disseminar ainda mais a impressão 3D ainda mais em São Carlos e região – como forma de retribuição à sociedade.
“Somos uma universidade financiada com recursos públicos. Nosso dever é servir a sociedade com o conhecimento gerado aqui. Esse tipo de atividade nos aproxima de uma realidade diferente, com desafios reais e multidisciplinares. Em um curso como este, voltado para professores, o conhecimento se multiplica, pois impactará os diversos alunos que eles têm contato. Do nosso lado, a experiência também é muito rica. Foi muito recompensador ver como os alunos da EESC que atuaram como monitores estavam motivados e engajados na atividade. Para eles, poder usar o que aprenderam em sala e nas demais atividades extracurriculares para gerar um benefício real e visível é muito gratificante e estimulante”, conclui Morais.
