
Transformar conhecimento e informação em ações de impacto social que tragam evoluções para a sociedade faz parte da missão das universidades realmente engajadas em extrapolar seus trabalhos para além dos muros acadêmicos. Esse, aliás, foi o objetivo que motivou a criação da Enactus, uma organização internacional sem fins lucrativos que reúne estudantes, lideranças acadêmicas e executivas em uma rede global presente em 33 países, incluindo o Brasil, onde também está inserida a Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo (EESC-USP). Fundado em 2013, o Time Enactus USP São Carlos atua no desenvolvimento de projetos de empreendedorismo social voltados à solução de desafios socioambientais, com projetos que têm sido reconhecidos e premiados por seu alcance e relevância.
Nesses quase 13 anos de atividades, o grupo já desenvolveu 12 projetos e impactou mais de 1.500 pessoas, com atuação voltada especialmente ao fortalecimento de comunidades e à geração de impactos sociais, econômicos e ambientais, sempre alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.
Formada atualmente por mais de 40 estudantes de graduação e pós-graduação da USP São Carlos, além de contar com o apoio de três professores conselheiros, um Alumni-mentor e um Business Advisory Board, a equipe celebra importantes reconhecimentos nacionais conquistados em 2026. Entre os principais destaques, o Time Enactus USP São Carlos foi finalista da Liga Principal do ENEB 2026, alcançando uma colocação entre os quatro melhores times da Enactus Brasil. Além disso, dois projetos desenvolvidos pelo time foram reconhecidos em importantes premiações nacionais, destacando a relevância e o impacto das iniciativas conduzidas pela equipe. O Projeto Iguatu foi vencedor do Prêmio ODS 7, ficou entre os Top 10 do edital Ford Comunidades Resilientes e entre os Top 6 do Prêmio Inovação Social, em parceria com a Amanco Wavin; já o Projeto Mirus foi vencedor do Prêmio Sociedade Sustentável Sumitomo Chemical, na categoria Desenvolvimento.
Uma das integrantes do Time Enactus de São Carlos é a estudante de Engenharia Ambiental da EESC, Marília Arantes César, que destaca a importância do olhar universitário para a transformação social. “A universidade tem um papel fundamental na aproximação entre o conhecimento acadêmico e as demandas reais da sociedade. Iniciativas de extensão como a Enactus possibilitam que aquilo que aprendemos ultrapasse a sala de aula e seja aplicado na construção de soluções junto às comunidades, o que também contribui para a nossa formação, ao termos contato com diferentes realidades, desafios e conhecimentos que dificilmente seriam vivenciados apenas por meio das atividades acadêmicas tradicionais”.
Compromisso social
Os projetos premiados ajudam a ilustrar bem esse compromisso social.
O Projeto Iguatu foi criado em 2024 com o objetivo levar água quente de forma acessível e sustentável para famílias do Assentamento Capão das Antas, em São Carlos (SP), comunidade que enfrenta dificuldades de acesso à energia elétrica. A problemática é ainda mais relevante porque o chuveiro elétrico é um dos equipamentos que mais consomem energia em uma residência, podendo representar cerca de 25% a 35% do consumo mensal em condições comuns de uso.



O projeto desenvolveu aquecedores solares de baixo custo, produzidos a partir do reaproveitamento de garrafas PET e embalagens cartonadas. O sistema utiliza a energia solar para aquecer a água e o efeito termossifão para promover sua circulação natural, sem a necessidade de bombas ou equipamentos elétricos.
Atualmente, o projeto atua na melhoria da tecnologia, coleta de materiais recicláveis e instalação dos sistemas nas residências da comunidade. Até o momento, foram instaladas quatro placas solares em duas residências, beneficiando diretamente quatro moradores. Os resultados alcançados incluem 18 kg de materiais reciclados, 500 kWh de energia limpa gerada, 162 kg de CO₂ evitados e aproximadamente R$ 450 economizados nas contas de energia das famílias.
O Projeto Mirus, por sua vez, nasceu com a missão de ajudar a Cooperativa Acácia, localizada em Araraquara, a fabricar produtos de maior valor agregado para aumentar a renda dos seus cooperados. A cooperativa atualmente trabalha separando resíduos plásticos coletados para posteriormente realizar a venda destes, perdendo a possibilidade de vender o plástico com um alto valor agregado.



“O Mirus vem realizando uma pesquisa para desenvolver produtos viáveis e de maior valor agregado a partir do plástico reciclado. Para isso, o projeto possui maquinários como triturador de plástico, injetora, extrusora e prensa da Precious Plastic. A partir desses maquinários, o projeto produz placas brutas de plástico reciclado e porta-copos, que são vendidos em feiras ou são distribuídos como brindes em eventos. Além disso, o projeto está buscando parcerias com empresas interessadas em utilizar as placas brutas de plástico reciclado na produção de itens de usos diversos, como mobiliários, e está finalizando a construção de um laboratório na própria cooperativa para abrigar os maquinários”, detalha Marília.
Em fevereiro de 2026, a equipe realizou a venda de 60 porta-copos, que foram entregues aos participantes da Experiência Imersiva da Enactus Brasil, realizada na sede da KPMG Brasil, em São Paulo. Em julho, durante o ENEB 2026, o projeto foi vencedor do Edital Sumitomo Chemical, na categoria Desenvolvimento e Sociedade Sustentável.
Acesso à moradia
Outro projeto de destaque foi o Domus, criado pela Enactus USP São Carlos e dedicado a transformar a realidade de comunidades em situação de vulnerabilidade no Brasil. Guiado pela missão de garantir a qualidade de vida e o bem-estar da população, o projeto atua para promover o acesso à moradia digna, adequada, segura e confortável por meio de melhorias sustentáveis em territórios desassistidos. Para isso, utiliza os princípios da economia circular, arrecadando embalagens cartonadas para transformá-las em placas de revestimento térmico e impermeável que protegem as residências contra o calor excessivo, o frio e as infiltrações da chuva.


Atualmente, o Projeto Domus concluiu uma fase decisiva e realizou sua entrega oficial, deixando um legado de autonomia e impacto duradouro nas regiões atendidas. Além da distribuição de doações para as comunidades, a equipe realizou capacitações práticas para que os próprios moradores aprendessem a confeccionar e aplicar os revestimentos de forma independente.
Para perpetuar esse conhecimento e permitir que a solução ganhe escala, foi criado um manual instrutivo que foi expandido e compartilhado com diversos líderes comunitários, capacitando novas lideranças a replicarem essa tecnologia social em outros territórios desassistidos pelo país. “São alguns dos exemplos que mostram de forma concreta como a universidade pode e deve ser um agente de transformação”, destaca a estudante da EESC. Para Marília, “fazer parte da Enactus tem sido uma experiência muito importante na minha formação, tanto profissional quanto pessoal, uma vez que o time me permitiu desenvolver habilidades que vão além da formação técnica, como liderança, comunicação, organização, gestão de pessoas, planejamento, trabalho em equipe e tomada de decisões. A iniciativa ampliou minha visão sobre o papel que podemos exercer enquanto futuros profissionais e sobre a responsabilidade de desenvolver soluções que considerem não apenas os aspectos técnicos, mas também as pessoas e as realidades envolvidas”.
Mais do que ser protagonista de um lugar melhor para viver, ao longo da participação na Enactus, os estudantes assumem responsabilidades cada vez maiores, passam a liderar projetos, equipes e áreas internas e têm contato com diferentes organizações, empresas e atores da sociedade.
“Assim, o impacto do trabalho não está apenas nos resultados alcançados pelos projetos, mas também na formação de pessoas mais preparadas para atuar de maneira responsável, colaborativa e consciente em suas futuras trajetórias profissionais”, ressalta a estudante da EESC.
