O mundo se aproxima de uma nova etapa da mudança do clima. O aquecimento global está prestes a ultrapassar, de forma persistente, o 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais, patamar que, desde o Acordo de Paris, passou a orientar os esforços internacionais para limitar o agravamento da crise climática. Um novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), publicado em 2 de setembro, considera que uma ultrapassagem temporária desse nível se tornou amplamente inevitável nas trajetórias atuais.
É esse novo cenário que estará em discussão no evento “O Limite de 1,5ºC Foi Superado – E Agora, Brasil?”, que será realizado no dia 30 de setembro, às 14h, no Auditório István Jancsó, no Espaço Brasiliana da USP (Rua da Biblioteca, 21, Cidade Universitária, São Paulo). O encontro será público e gratuito, com transmissão ao vivo pelo canal da Rede Saúde Planetária Brasil (SPBr) no YouTube. Para participar presencialmente, é necessário fazer inscrição prévia.
Quais impactos podem ser esperados sobre a saúde da população, a produção de alimentos, a disponibilidade de água, a biodiversidade e a economia? Como o país deve se preparar para eventos extremos mais frequentes ou intensos? E quais medidas de mitigação e adaptação ainda podem reduzir os riscos?
Para discutir essas questões, o evento reunirá Carlos Nobre, titular da Cátedra Clima & Sustentabilidade (parceria do IEA com a Reitoria da USP) e Paulo Artaxo, coordenador do Centro de Estudos da Amazônia Sustentável (Ceas) da USP, que serão os expositores. António Mauro Saraiva, coordenador da SPBr, fará a abertura e participará da sessão de comentários, ao lado de Aldo Roberto Ometto, coordenador de Inovação do Cepid Bridge-USP. A moderação será de Daniela Vianna, da SPBr e do Centro Brasil no Clima. A organização é da SPBr, da Cátedra Clima & Sustentabilidade, do Ceas e do Cepid Bridge, com apoio do INCT Combate à Fome da USP.

Cenários para o aquecimento
O relatório “Limiting Overshoot: Navigating Exceedance of 1.5°C and Pathways towards Return” (Limitando a Ultrapassagem: Lidando com a Superação de 1,5°C e Caminhos para o Retorno), divulgado pelo Pnuma em 2 de setembro, não estabelece um novo limite para o aquecimento global. O objetivo de 1,5°C permanece. A mudança está na avaliação das trajetórias para alcançá-lo: diante das emissões atuais, o mundo deverá ultrapassar esse patamar e, eventualmente, conseguirá retornar a ele. O relatório denomina esse processo de overshoot, ou ultrapassagem temporária.
No cenário mais otimista examinado pelo Pnuma, o aquecimento atingiria um pico de 1,8°C, a ser estabilizado e forçado a diminuir a níveis abaixo de 1,5ºC até 2100. Outros cenários apontam para picos superiores a 2°C. Por isso, a questão central passa a ser não apenas evitar o aquecimento, mas reduzir tanto quanto possível a magnitude e a duração da ultrapassagem de 1,5°C, com cortes rápidos e sustentados nas emissões e, posteriormente, redução das temperaturas.
A diferença é relevante porque, segundo o relatório, os riscos climáticos aumentam a cada fração adicional de grau e se tornam maiores quanto mais tempo o planeta permanece acima de 1,5°C. Entre os efeitos esperados estão o agravamento de eventos extremos, perdas de ecossistemas e impactos sobre saúde, segurança alimentar e hídrica, infraestrutura e economia. A duração e a intensidade do aquecimento também influenciam o risco de ultrapassagem de pontos de não retorno em sistemas como as grandes geleiras, a Amazônia e a circulação oceânica do Atlântico.
O debate ganha uma dimensão adicional diante da perspectiva de um forte El Niño em 2026-2027, fenômeno que pode afetar diferentes regiões brasileiras. O encontro discutirá o que a combinação entre o novo cenário de aquecimento global e as condições climáticas previstas para os próximos anos pode significar para o país.
