{"id":26980,"date":"2022-06-27T07:31:21","date_gmt":"2022-06-27T10:31:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/?p=26980"},"modified":"2022-11-25T10:40:15","modified_gmt":"2022-11-25T13:40:15","slug":"estudo-realizado-na-eesc-utilizou-bacterias-para-remover-farmacos-anti-inflamatorios-do-esgoto-domestico-de-sao-carlos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/?p=26980","title":{"rendered":"Estudo utiliza bact\u00e9rias para remover f\u00e1rmacos anti-inflamat\u00f3rios de esgoto dom\u00e9stico de S\u00e3o Carlos"},"content":{"rendered":"<p>Os micropoluentes org\u00e2nicos est\u00e3o inclu\u00eddos em ampla classe de subst\u00e2ncias qu\u00edmicas de origem sint\u00e9tica ou natural, os quais fazem parte da composi\u00e7\u00e3o de medicamentos, produtos de cuidados pessoais, plastificantes corantes, pesticidas e aditivos industriais. Na heterogeneidade da composi\u00e7\u00e3o dos efluentes l\u00edquidos, os f\u00e1rmacos s\u00e3o de alto consumo e emergente potencial para gerar impactos adversos \u00e0 qualidade da \u00e1gua e \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica. Dessa forma \u00e9 fundamental a busca de alternativas tecnol\u00f3gicas de degrada\u00e7\u00e3o dos micropoluentes antes de serem descarregados no ambiente.<\/p>\n<p>As descargas de esgoto dom\u00e9stico ou \u00e1gua residu\u00e1ria <em>in natura<\/em> e o lan\u00e7amento de efluentes, ap\u00f3s tratamento, em corpos h\u00eddricos aceptores constituem as principais vias de entrada desses micropoluentes no ambiente. Em n\u00edvel global, 80% das \u00e1guas residu\u00e1rias s\u00e3o lan\u00e7adas diretamente nas matrizes ambientais na forma <em>in natura<\/em>, ademais 95% do esgoto dom\u00e9stico n\u00e3o s\u00e3o tratados adequadamente em Esta\u00e7\u00f5es de Tratamento de Esgoto (ETE).<\/p>\n<p>No Brasil, 53% da popula\u00e7\u00e3o, equivalente em m\u00e9dia a 107,5 milh\u00f5es de pessoas, t\u00eam acesso \u00e0 coleta de esgoto sanit\u00e1rio. Deste percentual, estima-se que 46,3% s\u00e3o processadas em sistemas de tratamento. Na ETE, a maioria dos micropoluentes emergentes n\u00e3o \u00e9 degradada nos sistemas prim\u00e1rios, secund\u00e1rios e terci\u00e1rios. A partir disso, s\u00e3o lan\u00e7ados totalmente ou parcialmente inalterados nos cursos h\u00eddricos.<\/p>\n<p>Por serem compostos biologicamente ativos, os f\u00e1rmacos s\u00e3o produzidos com o intuito de provocar altera\u00e7\u00f5es biol\u00f3gicas em organismos alvos. No entanto, com a exposi\u00e7\u00e3o progressiva e cont\u00ednua desses compostos no esgoto ou \u00e1gua residu\u00e1ria, os organismos vivos n\u00e3o alvos podem sofrer efeitos adversos, podendo, assim, alterar o equil\u00edbrio ecossist\u00eamico da fauna aqu\u00e1tica, como efeitos na mobilidade e crescimento de esp\u00e9cies de algas, invertebrados e peixes.<\/p>\n<p>O diclofenaco (DCF) e o ibuprofeno (IBU) s\u00e3o f\u00e1rmacos anti-inflamat\u00f3rios n\u00e3o esteroidais e est\u00e3o inclu\u00eddos entre os micropoluentes emergentes e recalcitrantes em reatores biol\u00f3gicos em ETE. A ocorr\u00eancia destes micropoluentes pode causar impactos aos n\u00edveis tr\u00f3ficos do ecossistema aqu\u00e1tico, a partir do potencial de bioacumula\u00e7\u00e3o e genotoxicidade, contribuindo para a contamina\u00e7\u00e3o de mananciais e sistemas de abastecimento de \u00e1gua. Diclofenaco e ibuprofeno foram quantificados em 0,45 a 17,0 \u00b5g L<sup>-1<\/sup> em esgoto e 200 \u00b5g L<sup>-1<\/sup> em \u00e1gua residu\u00e1ria de ind\u00fastria farmac\u00eautica.<\/p>\n<p>A complexidade e onerosa detec\u00e7\u00e3o e quantifica\u00e7\u00e3o desses micropoluentes em diferentes matrizes, como \u00e1guas superficiais, subterr\u00e2neas e em solos, justificam a dificuldade de monitoramento frequente, o que dificulta ou atrasa a implementa\u00e7\u00e3o de legisla\u00e7\u00f5es vigentes. A degrada\u00e7\u00e3o dos micropoluentes pode ocorrer em condi\u00e7\u00e3o aer\u00f3bia, anaer\u00f3bia e an\u00f3xica e pode ser favorecida por fontes de carbono facilmente degrad\u00e1veis, por meio do cometabolismo. Assim, o cossubstrato \u00e9 fundamental para o desenvolvimento das popula\u00e7\u00f5es microbianas, o que pode resultar em maior degrada\u00e7\u00e3o dos compostos t\u00f3xicos e recalcitrantes. Os cossubstratos podem fazer parte da composi\u00e7\u00e3o do esgoto.<\/p>\n<p>Dessa forma, estudos de processos de tratamento de efluentes e remo\u00e7\u00e3o de micropoluentes org\u00e2nicos emergentes s\u00e3o necess\u00e1rios, os quais se iniciam em escalas menores e laboratoriais, como em reatores em bateladas com efluentes sint\u00e9ticos para viabilizar a aplica\u00e7\u00e3o em escala piloto com efluentes reais.<\/p>\n<p>No m\u00eas de mar\u00e7o, uma tese de doutorado foi defendida junto ao Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Engenharia Hidr\u00e1ulica e Saneamento da Escola de Engenharia de S\u00e3o Carlos (EESC), da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), sobre a utiliza\u00e7\u00e3o de reator de leito fluidificado com biofilme na remo\u00e7\u00e3o e degrada\u00e7\u00e3o de diclofenaco e ibuprofeno. O reator em escala aumentada foi instalado na Esta\u00e7\u00e3o de Tratamento de Esgoto Monjolinho em S\u00e3o Carlos (SP) e, com isso, reduziu os impactos destes f\u00e1rmacos nos corpos d&#8217;agua ap\u00f3s tratamento.<\/p>\n<p>\u201cA proposta do estudo foi analisar uma alternativa para a remo\u00e7\u00e3o completa ou parcial deles\u201d, explica Luciana de Melo Pirete, autora da tese intitulada \u201cInflu\u00eancia do etanol e nitrato na degrada\u00e7\u00e3o de diclofenaco e ibuprofeno em reator em batelada e cont\u00ednuo de leito fluidificado: \u00eanfase na caracteriza\u00e7\u00e3o tax\u00f4nomica e de poss\u00edveis vias metab\u00f3licas\u201d, sob a orienta\u00e7\u00e3o da professora Maria Bernadete Am\u00e2ncio Varesche, do Departamento de Hidr\u00e1ulica e Saneamento da EESC-USP.<\/p>\n<p>Sistemas de tratamentos de efluentes baseados em reatores de leito fluidificado consistem em processos biol\u00f3gicos nos quais a exist\u00eancia do biofilme aderido ao meio suporte promove a ades\u00e3o de diferentes popula\u00e7\u00f5es de bact\u00e9rias e a recircula\u00e7\u00e3o do efluente para fluidifica\u00e7\u00e3o do leito do reator. Assim, a efici\u00eancia do tratamento \u00e9 relacionada com a forma\u00e7\u00e3o e desenvolvimento do biofilme, vaz\u00e3o afluente e das caracter\u00edsticas do meio suporte.<\/p>\n<p>Diferentes popula\u00e7\u00f5es de bact\u00e9rias estiveram aderidas no biofilme do material suporte (areia) do leito do reator fluidificado. \u201cO cometabolismo tem sido investigado em cons\u00f3rcios microbianos para a degrada\u00e7\u00e3o de f\u00e1rmacos em sistemas biol\u00f3gicos de tratamento de efluentes. Nesse processo, os f\u00e1rmacos n\u00e3o s\u00e3o utilizados como fontes priorit\u00e1rias de carbono e substrato, visto que s\u00e3o formados por estruturas complexas para degrada\u00e7\u00e3o. Com isso, fontes suplementares de carbono, prontamente dispon\u00edveis, tais como etanol e metanol podem induzir a produ\u00e7\u00e3o de enzimas que viabilizam a metaboliza\u00e7\u00e3o dos compostos dif\u00edceis de serem removidos\u201d, fala Luciana.<\/p>\n<p>Em escalas menores e laboratoriais foi obtida a remo\u00e7\u00e3o m\u00e1xima de 97% de ibuprofeno e 25% de diclofenaco a partir de 80 \u00b5g\/L; enquanto em reator em escala aumentada, instalado na ETE Monjolinho, em S\u00e3o Carlos, foi obtida m\u00e1xima remo\u00e7\u00e3o de 52,9% de diclofenaco e 56% de ibuprofeno por bact\u00e9rias acidog\u00eanicas, presentes no pr\u00f3prio esgoto do munic\u00edpio, em concentra\u00e7\u00e3o afluente de 185,6 \u00b5g\/L de diclofenaco e 150 \u00b5g\/L de ibuprofeno<\/p>\n<p>No Brasil, n\u00e3o h\u00e1 regulamenta\u00e7\u00e3o vigente e nem programas oficiais voltados ao monitoramento dos poluentes emergentes em matrizes ambientais. Dentre os poluentes emergentes, a legisla\u00e7\u00e3o brasileira contempla apenas 30 pesticidas pela Portaria da Consolida\u00e7\u00e3o n\u00ba 5\/2017 e pela Resolu\u00e7\u00e3o CONAMA 357\/2005, sendo deficit\u00e1ria em crit\u00e9rios de qualidade para regulamenta\u00e7\u00e3o dos demais micropoluentes emergentes, como anti-inflamat\u00f3rios, horm\u00f4nios e antibi\u00f3ticos.<\/p>\n<p>Por meio da revis\u00e3o da Portaria de Potabilidade do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, Consolida\u00e7\u00e3o n\u00ba 5\/2017 e do Minist\u00e9rio do Meio Ambiente, foram elencadas discuss\u00f5es e estudos relacionados aos f\u00e1rmacos, especificamente, cafe\u00edna e bisfenol A, para que sejam inclu\u00eddos como exig\u00eancia no Plano de Seguran\u00e7a da \u00c1gua. Esse levantamento foi conduzido por associa\u00e7\u00f5es e \u00f3rg\u00e3os do governo, como a Companhia Ambiental do Estado de S\u00e3o Paulo (CETESB), que elaborou uma proposta a ser apresentada pela Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Engenharia Sanit\u00e1ria e Ambiental (ABES). No entanto, mesmo com as discuss\u00f5es dessas diretivas, os compostos emergentes n\u00e3o foram enquadrados na Portaria brasileira por carecer de novos estudos quanto \u00e0 ocorr\u00eancia e distribui\u00e7\u00e3o destes poluentes em n\u00edvel nacional.<\/p>\n<p>\u201cDessa forma, estudos de processos de tratamento de efluentes e remo\u00e7\u00e3o de micropoluentes org\u00e2nicos emergentes s\u00e3o necess\u00e1rios em vista da complexidade e onerosa remo\u00e7\u00e3o desses f\u00e1rmacos\u201d, apontam a autora e a orientadora da tese defendida na EESC-USP.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Alexandre Milanetti, para a Assessoria de Comunica\u00e7\u00e3o da EESC<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A tese foi defendida pela doutoranda Luciana Pirete, sob orienta\u00e7\u00e3o da professora Maria Bernadete Varesche, do Departamento de Hidr\u00e1ulica e Saneamento.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":26981,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"inline_featured_image":false,"footnotes":""},"categories":[37],"tags":[],"class_list":["post-26980","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","entry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/26980","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=26980"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/26980\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":26991,"href":"https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/26980\/revisions\/26991"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/26981"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=26980"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=26980"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=26980"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}