{"id":56608,"date":"2026-03-05T13:43:39","date_gmt":"2026-03-05T16:43:39","guid":{"rendered":"https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/?p=56608"},"modified":"2026-04-11T17:32:22","modified_gmt":"2026-04-11T20:32:22","slug":"nao-e-apagao-de-engenheirosas-e-apagao-de-condicoes-para-fazer-engenharia-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/?p=56608","title":{"rendered":"N\u00e3o \u00e9 apag\u00e3o de engenheiros(as): \u00e9 apag\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es para fazer engenharia no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"img-fluid alignright mb-3\" src=\"https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/MarcosNeira.png\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/>Na fila do bandej\u00e3o, em uma conversa r\u00e1pida de fim de aula, uma estudante de engenharia descreveu a d\u00favida que tem rondado as(os) colegas: \u201cEu gosto do curso, mas n\u00e3o sei se vou trabalhar como engenheira. Todo mundo diz que, no fim, o melhor \u00e9 atuar no mercado financeiro\u201d. A frase n\u00e3o \u00e9 um dado estat\u00edstico, mas ajuda a enxergar o n\u00facleo do problema. O Brasil pode at\u00e9 formar profissionais altamente qualificados(as), mas n\u00e3o tem assegurado, com a mesma consist\u00eancia, as condi\u00e7\u00f5es para que a engenharia se sustente como escolha de carreira e como projeto de desenvolvimento.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"img-fluid alignright mb-3\" src=\"https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/LucianaMontanari-1.png\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/>Volta e meia reaparece, nos jornais e nas redes, a ideia de que o Pa\u00eds vive um \u201capag\u00e3o de engenheiros(as)\u201d. A express\u00e3o \u00e9 forte, chama a aten\u00e7\u00e3o e, justamente por isso, costuma empurrar o debate para solu\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas: \u201cabrir mais vagas\u201d, \u201cformar mais\u201d, \u201cflexibilizar tudo\u201d. O problema \u00e9 que, quando o diagn\u00f3stico \u00e9 apressado, a remedia\u00e7\u00e3o quase sempre erra o alvo. O que est\u00e1 em jogo n\u00e3o \u00e9 apenas quantidade: \u00e9 um descompasso estrutural entre forma\u00e7\u00e3o qualificada, valoriza\u00e7\u00e3o profissional e capacidade do Pa\u00eds de empregar, reter e mobilizar engenheiras(os) em projetos produtivos.<\/p>\n<p>A pergunta, ent\u00e3o, precisa mudar de patamar: h\u00e1 falta de engenheiras(os) ou falta de condi\u00e7\u00f5es para que a engenharia se sustente como carreira atrativa e socialmente estrat\u00e9gica?<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"img-fluid alignright mb-3\" src=\"https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/FernandoKurokawa.png\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/>O pano de fundo \u00e9 conhecido e raramente enfrentado com a devida franqueza: a redu\u00e7\u00e3o do peso da ind\u00fastria no Produto Interno Bruto, associada \u00e0 perda de dinamismo do investimento produtivo. Em economias onde a ind\u00fastria tem participa\u00e7\u00e3o expressiva, a densidade de engenheiras(os) tamb\u00e9m \u00e9 maior; onde a ind\u00fastria encolhe, a demanda por perfis de engenharia tende a se retrair ou a se deslocar para nichos muito espec\u00edficos. O Brasil, nesse sentido, n\u00e3o pode tratar \u201capag\u00e3o\u201d como se fosse uma falha exclusiva das universidades.<\/p>\n<p>Isso nos leva ao segundo ponto: reten\u00e7\u00e3o (manuten\u00e7\u00e3o de v\u00ednculo). \u00c9 sabido que muitos(as) profissionais formados(as) migram para o com\u00e9rcio e, sobretudo, para o setor financeiro, em busca de melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho, sal\u00e1rios e reconhecimento. No Minicenso 2024 do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea), 82% das(os) respondentes consideram as condi\u00e7\u00f5es de trabalho e os sal\u00e1rios pouco atrativos. Se a carreira perde atratividade, n\u00e3o basta produzir mais diplomas. Uma parcela relevante de quem conclui n\u00e3o permanece na engenharia, o que n\u00e3o significa \u201cfalha individual\u201d, mas sinal de que a baixa de oportunidades empurra os talentos para outros setores.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"img-fluid alignright mb-3\" src=\"https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/WanessaMattos.png\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/>O terceiro ponto costuma ser tratado com simplifica\u00e7\u00f5es: evas\u00e3o. \u00c9 comum atribu\u00ed-la a \u201cbase fraca\u201d, \u201ccurr\u00edculo r\u00edgido\u201d ou \u201cfalta de interdisciplinaridade\u201d. Essa explica\u00e7\u00e3o, sozinha, \u00e9 insuficiente. A evas\u00e3o tamb\u00e9m se relaciona a expectativas de empregabilidade e retorno econ\u00f4mico; h\u00e1 mobilidade acad\u00eamica interna (transfer\u00eancias entre cursos de engenharia) e h\u00e1, ainda, uma evas\u00e3o tardia, quando a(o) estudante concluiu ou est\u00e1 prestes a concluir e se desloca para consultorias e setor financeiro. Em outras palavras: o percurso formativo dialoga o tempo todo com o horizonte de futuro que o pa\u00eds oferece.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"img-fluid alignright mb-3\" src=\"https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/HerlandiSouza.png\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/>Nesse contexto, vale olhar com cuidado para oferta e procura. Entre 2018 e 2024, as vagas das universidades p\u00fablicas em engenharia cresceram, enquanto o setor privado reduziu fortemente a oferta presencial. N\u00e3o se trata, portanto, de um sistema p\u00fablico \u201cenxugando forma\u00e7\u00e3o\u201d. A retra\u00e7\u00e3o aparece onde o mercado responde mais rapidamente \u00e0 conjuntura econ\u00f4mica. E isso ajuda a compreender por que a procura diminui: a queda de demanda n\u00e3o nasce em um suposto desinteresse \u201cgeracional\u201d pela engenharia, mas acompanha a redu\u00e7\u00e3o de investimentos e a perda de protagonismo da ind\u00fastria.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria USP, como term\u00f4metro, registra queda na rela\u00e7\u00e3o candidato\/vaga em determinados cursos entre 2014 e 2022, com alguma recupera\u00e7\u00e3o recente. Trata-se de um comportamento coerente com um pa\u00eds que alterna ciclos de investimento em infraestrutura e produ\u00e7\u00e3o e, ao mesmo tempo, convive com instabilidade que desorganiza expectativas de carreira.<\/p>\n<p>Se o diagn\u00f3stico muda, a agenda de respostas tamb\u00e9m precisa mudar. \u00c9 por isso que o Cons\u00f3rcio das Engenharias da USP, em alinhamento aos Objetivos Estrat\u00e9gicos da Pr\u00f3-Reitoria de Gradua\u00e7\u00e3o, concebeu e colocou em marcha um plano em tr\u00eas horizontes (curto, m\u00e9dio e longo prazo). Ele ganha for\u00e7a quando lido como estrat\u00e9gia integrada, e n\u00e3o como lista.<\/p>\n<p>No curto prazo, a prioridade \u00e9 perman\u00eancia e sucesso acad\u00eamico: tutoria, apoio pedag\u00f3gico em disciplinas iniciais (especialmente em matem\u00e1tica), monitoramento de risco e interven\u00e7\u00f5es precoces, com uso respons\u00e1vel de intelig\u00eancia artificial como suporte ao acompanhamento e ao trabalho docente. Isso n\u00e3o substitui docentes; ao contr\u00e1rio, amplia a capacidade institucional de detectar gargalos, oferecer caminhos e reduzir a reprova\u00e7\u00e3o que, tantas vezes, vira desist\u00eancia.<\/p>\n<p>No mesmo horizonte, faz diferen\u00e7a aproximar estudantes e setor produtivo, n\u00e3o como propaganda, mas como leitura realista das transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas, dos campos emergentes e dos perfis profissionais demandados. Workshops, parcerias e experi\u00eancias formativas conectadas a problemas concretos ajudam a reconstruir sentido, pertencimento e perspectiva de futuro.<\/p>\n<p>No m\u00e9dio prazo, a \u00eanfase recai sobre a amplia\u00e7\u00e3o do uso de metodologias ativas de ensino-aprendizagem e de disciplinas eletivas transversais, integra\u00e7\u00e3o com empresas e outras institui\u00e7\u00f5es de ensino superior, al\u00e9m de a\u00e7\u00f5es articuladas com as redes p\u00fablicas de educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica. Aqui, a palavra-chave \u00e9 qualidade com abertura: rigor t\u00e9cnico combinado a percursos mais flex\u00edveis, que permitam \u00e0s(aos) estudantes compor trajet\u00f3rias coerentes com \u00e1reas como energia, infraestrutura, mobilidade, manufatura avan\u00e7ada e tecnologias digitais.<\/p>\n<p>No longo prazo, \u00e9 preciso reconhecer: nenhum esfor\u00e7o de forma\u00e7\u00e3o se sustenta sem um pacto de desenvolvimento. Da\u00ed a import\u00e2ncia de uma alian\u00e7a entre USP, Unesp e Unicamp em engenharia mediada pela Secretaria de Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o; o fortalecimento das a\u00e7\u00f5es com a Secretaria da Educa\u00e7\u00e3o e, sobretudo, a institucionaliza\u00e7\u00e3o da chamada \u201ch\u00e9lice qu\u00edntupla\u201d (sociedade civil, governo, universidade, ind\u00fastria e meio ambiente), com iniciativas como forma\u00e7\u00e3o dual e financiamento compartilhado.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de \u201centregar\u201d a universidade; trata-se de construir um ecossistema em que forma\u00e7\u00e3o excelente encontre demanda consistente, com carreira valorizada e projetos nacionais de m\u00e9dio e longo prazo.<\/p>\n<p>H\u00e1 um ponto adicional que merece ser explicitado: a USP n\u00e3o parte do zero. Diversas a\u00e7\u00f5es j\u00e1 foram implementadas, desde aux\u00edlio perman\u00eancia e mecanismos de identifica\u00e7\u00e3o de risco acad\u00eamico at\u00e9 programas de monitorias e iniciativas de desenvolvimento profissional docente; al\u00e9m de conv\u00eanios, duplo diploma, moderniza\u00e7\u00e3o de infraestrutura para o ensino e avan\u00e7o da curriculariza\u00e7\u00e3o da extens\u00e3o, com interfaces no ensino m\u00e9dio. Isso importa porque desloca o debate do \u201co que deveria ser feito\u201d para \u201co que est\u00e1 sendo feito, como aprimorar e como avaliar resultados\u201d.<\/p>\n<p>E avaliar, aqui, \u00e9 decisivo. \u00c9 preciso ser honesto com os crit\u00e9rios: menos slogans, mais indicadores. Se o problema envolve reten\u00e7\u00e3o e atratividade, faz sentido acompanhar taxas de evas\u00e3o e reprova\u00e7\u00e3o, tempo de conclus\u00e3o, rela\u00e7\u00e3o candidato\/vaga, inser\u00e7\u00e3o profissional em engenharia e migra\u00e7\u00e3o para outros setores. O debate sobre \u201capag\u00e3o\u201d ganha qualidade quando substitui impress\u00f5es por s\u00e9ries hist\u00f3ricas e compara\u00e7\u00f5es coerentes com a estrutura produtiva do Pa\u00eds.<\/p>\n<p>Em s\u00edntese, o Brasil n\u00e3o precisa apenas \u201cde mais engenheiras(os)\u201d. Precisa de um ambiente em que a engenharia seja uma escolha racional e desej\u00e1vel: com carreira valorizada, demanda consistente, ind\u00fastria e infraestrutura com rumo e investimento, e universidades capazes de combinar rigor, perman\u00eancia estudantil, inova\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica e conex\u00e3o respons\u00e1vel com os desafios do desenvolvimento.<\/p>\n<p>Se quisermos que aquela conversa no bandej\u00e3o termine de outro jeito, com estudantes dizendo \u201cvou ficar na engenharia porque vale a pena\u201d, o Pa\u00eds precisa fazer sua parte. A Universidade pode e deve aprimorar perman\u00eancia, forma\u00e7\u00e3o e articula\u00e7\u00e3o com a sociedade. Mas sem uma estrat\u00e9gia nacional que reanime a base produtiva, valorize o trabalho de engenharia e sustente projetos de longo prazo, o \u201capag\u00e3o\u201d continuar\u00e1 sendo um r\u00f3tulo recorrente para encobrir o essencial: n\u00e3o falta capacidade de formar; faltam condi\u00e7\u00f5es para realizar, aqui, a engenharia de que o Brasil necessita.<\/p>\n<p><em>* Luciana Montanari, professora da Escola de Engenharia de S\u00e3o Carlos (EESC); Fernando Kurokawa, professor da Escola Polit\u00e9cnica (Poli); Herland\u00ed Andrade, professor da Escola de Engenharia de Lorena (EEL); Wanessa Melchert Mattos, professora da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq); Fernanda Vanin, professora da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA); Antonio Seabra, professor da Escola Polit\u00e9cnica (Poli): Elis\u00e2ngela Moraes, professora da Escola de Engenharia de Lorena (EEL); e Marcos Neira, pr\u00f3-reitor pro tempore de Gradua\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Luciana Montanari, professora da EESC; Fernando Kurokawa, professor da Poli; Herland\u00ed Andrade, professor da EEL; Wanessa Melchert Mattos, professora da Esalq; e outros autores.<\/p>\n","protected":false},"author":20,"featured_media":56987,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"inline_featured_image":false,"footnotes":""},"categories":[111,211,55,37],"tags":[],"class_list":["post-56608","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-comunicados-alunos","category-eesc-comunidade","category-divulgacao-imprensa","category-noticias","entry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/56608","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/20"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=56608"}],"version-history":[{"count":13,"href":"https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/56608\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":56663,"href":"https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/56608\/revisions\/56663"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/56987"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=56608"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=56608"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=56608"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}