{"id":60242,"date":"2026-08-28T13:52:29","date_gmt":"2026-08-28T16:52:29","guid":{"rendered":"https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/?p=60242"},"modified":"2026-08-31T12:17:15","modified_gmt":"2026-08-31T15:17:15","slug":"a-transicao-energetica-nao-deveria-ser-um-balcao-de-negocios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/?p=60242","title":{"rendered":"A transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica n\u00e3o deveria ser um balc\u00e3o de neg\u00f3cios"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_60247\" aria-describedby=\"caption-attachment-60247\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-60247 size-large\" src=\"https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Imagem-Thumbnail-Energia-Solar-Eolica-1024x537.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"393\" srcset=\"https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Imagem-Thumbnail-Energia-Solar-Eolica-1024x537.jpg 1024w, https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Imagem-Thumbnail-Energia-Solar-Eolica-300x157.jpg 300w, https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Imagem-Thumbnail-Energia-Solar-Eolica-768x403.jpg 768w, https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Imagem-Thumbnail-Energia-Solar-Eolica.jpg 1030w\" sizes=\"auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-60247\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: <a href=\"https:\/\/www.magnific.com\/free-photo\/solar-pannels-wind-power-plant-arrangement_25125185.htm#fromView=search&amp;page=3&amp;position=34&amp;uuid=7394580e-7cec-4903-a301-81dda63ea6fb&amp;track=ais_hybrid&amp;query=transi%C3%A7%C3%A3o+energetica\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Magnific.<\/a><\/figcaption><\/figure>\n<table style=\"border-collapse: collapse; width: 100%; height: 262px;\">\n<tbody>\n<tr style=\"height: 262px;\">\n<td style=\"width: 25.3681%; height: 262px;\">\n<figure id=\"attachment_60251\" aria-describedby=\"caption-attachment-60251\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-60251\" src=\"https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Docentes-300x213.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"213\" srcset=\"https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Docentes-300x213.png 300w, https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Docentes-1024x726.png 1024w, https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Docentes-768x545.png 768w, https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Docentes-1536x1090.png 1536w, https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Docentes-1568x1112.png 1568w, https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Docentes.png 1748w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-60251\" class=\"wp-caption-text\">Profa. Fl\u00e1via Colla\u00e7o. Foto: Anne Ferraz (SVCOM\/EESC-USP).<\/figcaption><\/figure>\n<\/td>\n<td style=\"width: 2.67921%; height: 262px;\">\u00a0<\/td>\n<td style=\"width: 76.7076%; height: 262px;\"><span class=\"wpsdc-drop-cap\">A<\/span>s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas constituem o maior desafio coletivo do nosso tempo. Enfrent\u00e1-las requer uma profunda transforma\u00e7\u00e3o da forma como produzimos, consumimos e nos relacionamos com a energia, com os territ\u00f3rios e com os recursos naturais. Trata-se de uma transi\u00e7\u00e3o que \u00e9, simultaneamente, tecnol\u00f3gica, pol\u00edtica, econ\u00f4mica, institucional, cultural e cidad\u00e3. Mais do que substituir fontes de energia, significa redefinir prioridades, redistribuir benef\u00edcios e riscos, fortalecer a participa\u00e7\u00e3o social e construir modelos de desenvolvimento compat\u00edveis com os limites ecol\u00f3gicos do planeta e com a promo\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a social.<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>Entretanto, basta entrar em um congresso, semin\u00e1rio ou feira sobre transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica para perceber um deslocamento do discurso\u2026 Em vez de um debate orientado para pol\u00edtica e soberania energ\u00e9tica, encontramos estandes, rodadas de investimento, prospec\u00e7\u00e3o de mercados e disputas por oportunidades econ\u00f4micas. Em muitos momentos, parece que houve um pequeno erro de digita\u00e7\u00e3o no conceito: deixamos de discutir a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica para celebrar investimentos e neg\u00f3cios da transa\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica (aqui fa\u00e7o men\u00e7\u00e3o honrosa e saudosa ao querido professor C\u00e9lio Bermann, que nos deixou em janeiro de 2026).<\/p>\n<p>Essa n\u00e3o \u00e9 apenas uma provoca\u00e7\u00e3o sem\u00e2ntica. \u00c9 um diagn\u00f3stico. O Brasil tornou-se um dos principais s\u00edmbolos mundiais da expans\u00e3o das energias renov\u00e1veis. Nossa matriz el\u00e9trica figura entre as mais \u201climpas\u201d do planeta, com a gera\u00e7\u00e3o e\u00f3lica e solar crescendo em ritmo acelerado. No entanto, s\u00e3o muitas as contradi\u00e7\u00f5es que um observador mais atento pode notar ao analisar nosso modelo energ\u00e9tico por meio da confronta\u00e7\u00e3o de poucos dados\u2026<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria do setor el\u00e9trico brasileiro demonstra isso com clareza. A constru\u00e7\u00e3o do Sistema Interligado Nacional foi de uma sagacidade e projeto pol\u00edtico impressionantes, chegando a 99% dos brasileiros, mas, ao mesmo tempo, foi sustentada por grandes hidrel\u00e9tricas que deslocaram comunidades, inundaram patrim\u00f4nios culturais, alteraram ecossistemas inteiros e produziram conflitos sociais que permanecem at\u00e9 hoje. Mas os paradoxos n\u00e3o pararam no passado.<\/p>\n<p>Nunca produzimos tanta eletricidade a partir do vento e do Sol. Mas tamb\u00e9m nunca desperdi\u00e7amos tanta energia. A expans\u00e3o acelerada das fontes renov\u00e1veis intermitentes tem tornado o sistema progressivamente mais vulner\u00e1vel. Em 2026, o Pa\u00eds j\u00e1 descartou volumes de gera\u00e7\u00e3o renov\u00e1vel equivalentes \u00e0 produ\u00e7\u00e3o anual de Itaipu. Ainda assim, o Brasil assiste ao crescimento da pobreza energ\u00e9tica justamente entre aqueles que deveriam ser os principais benefici\u00e1rios dessa expans\u00e3o. Hoje, mais de 82 milh\u00f5es de brasileiros est\u00e3o inadimplentes, e as despesas com energia el\u00e9trica, \u00e1gua e g\u00e1s respondem por aproximadamente 21% das d\u00edvidas em atraso. O paradoxo \u00e9 evidente: produzimos mais energia do que nunca, mas ela permanece cada vez menos acess\u00edvel para uma parcela significativa da popula\u00e7\u00e3o. A pergunta torna-se inevit\u00e1vel: transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica para quem?<\/p>\n<p>Se a expans\u00e3o da infraestrutura energ\u00e9tica n\u00e3o se traduz em redu\u00e7\u00e3o das desigualdades, em acesso universal \u00e0 energia de qualidade, em tarifas mais acess\u00edveis e em melhoria das condi\u00e7\u00f5es de vida, talvez seja necess\u00e1rio perguntar se estamos transformando o sistema energ\u00e9tico ou apenas ampliando seus mercados.<\/p>\n<p>A crescente corrida para atrair\u00a0<em>data centers<\/em>\u00a0ilustra esse dilema. Essas infraestruturas demandam enormes quantidades de eletricidade e \u00e1gua, justamente em um contexto de crescente inseguran\u00e7a h\u00eddrica provocada pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Energia pode ser produzida de diferentes formas; \u00e1gua doce, por\u00e9m, continua sendo um recurso finito e reconhecido internacionalmente como um direito humano. \u00c9 leg\u00edtimo perguntar quais prioridades est\u00e3o orientando o planejamento energ\u00e9tico nacional e quais interesses ocupam o centro dessa agenda.<\/p>\n<p>O problema talvez n\u00e3o seja apenas tecnol\u00f3gico, mas imaginativo. E aqui a universidade tem um papel muito importante: o de produzir conhecimento, cr\u00edtica e utopias!<\/p>\n<p>Grande parte dos cen\u00e1rios de transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica parte do pressuposto de que basta substituir combust\u00edveis f\u00f3sseis por fontes renov\u00e1veis para que o futuro seja automaticamente mais sustent\u00e1vel. Mas uma verdadeira transi\u00e7\u00e3o n\u00e3o consiste apenas em trocar a origem da eletricidade. Ela pressup\u00f5e transformar as rela\u00e7\u00f5es entre energia, territ\u00f3rio, economia e sociedade. Pressup\u00f5e perguntar n\u00e3o apenas como produzimos energia, mas para qu\u00ea, para quem e sob quais custos sociais e ambientais.<\/p>\n<p>Em outras palavras, talvez nos falte diversidade de imagin\u00e1rios sobre o futuro energ\u00e9tico.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente essa lacuna que orienta parte das pesquisas que temos desenvolvido na Universidade de S\u00e3o Paulo. Recentemente, em parceria com a pesquisadora Sth\u00e9fanny Sanchez Frizzarim, aprovamos o projeto\u00a0<em>Participatory Energy Planning for Just and Inclusive Energy Access<\/em>, selecionado no edital\u00a0<em>UGPN Research Collaboration Fund 2026<\/em>, em colabora\u00e7\u00e3o com o professor Frederico F\u00e1bio Mauad (USP), a professora Jennifer Richmond-Bryant (North Carolina State University, Estados Unidos) e o professor Thomas Roberts (University of Surrey, Reino Unido).<\/p>\n<p>O projeto parte de uma pergunta simples, mas frequentemente ignorada: quem participa da constru\u00e7\u00e3o dos cen\u00e1rios que orientam as decis\u00f5es energ\u00e9ticas?<\/p>\n<p>Ao integrar modelagem energ\u00e9tica, planejamento participativo e justi\u00e7a energ\u00e9tica, a pesquisa busca construir cen\u00e1rios que incorporem os conhecimentos produzidos nos territ\u00f3rios, especialmente por comunidades tradicionais e popula\u00e7\u00f5es diretamente afetadas pelas transforma\u00e7\u00f5es em curso. Mais do que produzir proje\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas, o objetivo \u00e9 democratizar os pr\u00f3prios processos de imaginar o futuro.<\/p>\n<p>Porque uma transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica verdadeiramente justa n\u00e3o ser\u00e1 medida apenas pelo n\u00famero de gigawatts instalados ou pelos bilh\u00f5es de reais anunciados em novos investimentos. Ela ser\u00e1 medida pela capacidade de reduzir desigualdades, ampliar direitos, proteger territ\u00f3rios e colocar a energia a servi\u00e7o da sociedade, e n\u00e3o apenas dos neg\u00f3cios. Caso contr\u00e1rio, continuaremos confundindo transi\u00e7\u00e3o com transa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>Por: Profa. Fl\u00e1via Mendes de Almeida Colla\u00e7o (SHS\/EESC-USP) |\u00a0<\/em><em><a href=\"https:\/\/jornal.usp.br\/artigos\/a-transicao-energetica-nao-deveria-ser-um-balcao-de-negocios\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Jornal da USP<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste artigo, a professora Fl\u00e1via Colla\u00e7o (SHS) aborda a import\u00e2ncia da ado\u00e7\u00e3o de modelos de desenvolvimento compat\u00edveis com os limites ecol\u00f3gicos do planeta e com a promo\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a social.<\/p>\n","protected":false},"author":20,"featured_media":60247,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"inline_featured_image":false,"footnotes":""},"categories":[37,201],"tags":[238,232,344,340],"class_list":["post-60242","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","category-destaque-box","tag-eesc","tag-sustentabilidade","tag-transicao-energetica","tag-usp-sustentavel","entry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/60242","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/20"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=60242"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/60242\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":60252,"href":"https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/60242\/revisions\/60252"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/60247"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=60242"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=60242"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/eesc.usp.br\/comunicacao-admin\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=60242"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}